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Revista Veja - Veja Rio 15/set//1999 - Por Karla Monteiro O Som da Praia ![]() |
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Quarteto
transforma calçadão em palco e lança CD Numa tarde de 1928, o grande cantor Mário Reis recebeu um telefonema inesperado. Do outro lado da linha, uma voz desconhecida dizia: "Meu nome é Ary Barroso e tenho um samba chamado Vou a Penha. Gostaria que escutasse para ver se poderia gravá-lo". Mário achou esquisito, mas decidiu ouvir o tal samba. Começa aí a carreira daquele que viria a ser o mais importante compositor brasileiro da velha-guarda. Setenta e um anos depois, o quarteto carioca No Olho da Rua, formado por Fernando Rosa (baixo), Paulo Rego (sax), Roberto Alves (piano) e Theomar Ferreira (bateria), fazia uma de suas rotineiras apresentações matinais na Praia de Ipanema, na altura do Posto 10, quando foi abordado por uma senhora. Ela tinha nas mãos um pilha de songbooksde Ary Barroso. Entregou o material ao saxofonista Paulo Rego e disse que gostaria que o conjunto incrementasse o repertório com algumas pérolas do velho gênio. No domingo seguinte, lá estava a desconhecida de novo. Desta vez se apresentou. Era a filha mais velha do compositor, Mariúza Barroso. O encontro inusitado rendeu à banda mambenbe um disco - lançado há três semanas no Paço Imperial - recheado com a belíssima valsa inédita Sombra e Luz, do autor de Aquarela do Brasil. O grupo instrumental No Olho da Rua é um velho conhecido dos frequentadores das praias de Ipanema e Leblon. A primeira apresentação do quarteto foi no verão de 1997, na altura da rua Bartholomeu Mitre. Formada por músicos com longa estrada na noite carioca, a banda não tinha nome. Rapidamente ganhou um apelido dos fãs: Bartô Onze e Meia (referência ao local e horário do show). Para a tristeza da galera que batia ponto para assistir à jam, a temporada foi curta. Alguns meses depois da estréia, a prefeitura proibiu as apresentações alegando que o barulho incomodava os moradores da região. Nem mesmo um abaixo-assinado com 1000 assinaturas conseguiu derrubar a proibição. No início deste ano, depois de uma tentativa frustrada de retorno em 1998, os quatro vestiram a cara de pau e, mesmo sem licença, começaram a tocar no Posto 10, sempre no final das manhas de domingo. "Adoramos tocar juntos e não temos lugar. O jeito é fazer o nosso som na cara grande mesmo", diz Paulo Rego. O som, uma mistura de jazz, samba e bossa-nova, atrai a quem passeia por ali. Já rendeu até um fã-clube. "Sou habitué. É a minha diversão no domingo", conta a publicitária Paula Dutra Ximenes. "Deveria haver bandas como essa em cada esquina do Rio. É a cara da cidade". Com apresentações na praia - num domingo ensolarado eles chegam a embolsar 150 reais -, o quarteto conseguiu juntar dinheiro para gravar o primeiro disco. O repertório é composto de sete composições próprias, duas músicas de Ary Barroso (Sombra e Luz e Na Baixa do Sapateiro) e uma de Heitor Villa-Lobos (O Trenzinho Caipira). Na noite de lançamento, conseguiu vender 120 discos da tiragem inicial de 1000. A cada domingo na praia, vende, em média, 25 cópias. O CD é exatamente o que se vê ao vivo: muita improvisação. Com pouco dinheiro, o grupo gravou em quinze horas de estúdio, sem direito a repetição. "Não existe erro. Música é igual a filho. Se nascer com três orelhas, é isso mesmo. É nosso, e é lindo", argumenta o baterista Theomar Ferreira. Esse jeito espontâneo e feliz de encarar a música foi exatamente o que encantou a filha do mestre Ary Barroso. Acostumada a ouvir o melhor desde o berço, ela se apaixonou pelo grupo a primeira vista. "Esses rapazes tocam com o coração, como meu pai. Percebi a sonoridade deles de longe", elogia Mariúza.
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